Os desafios da Miastenia Gravis Juvenil: aspectos clínicos, diagnóstico e tratamento

Bastante desafiadora e ainda bastante desconhecida, a Miastenia Gravis Juvenil (MGJ) representa condição clínica neuromuscular autoimune rara.

DOENÇAS RARASDOENÇAS NEUROMUSCULARES

Dr. Wladimir Bocca Vieira de Rezende Pinto

10/7/202611 min ler

Miastenia Gravis; MG juvenil; doenças neuromusculares pediátricas
Miastenia Gravis; MG juvenil; doenças neuromusculares pediátricas

Imagem produzida através do uso de ChatGPT (Open AI), em 7 de outubro de 2026. 

Introdução

A Miastenia Gravis (MG) é uma doença autoimune da junção neuromuscular caracterizada por fraqueza muscular flutuante e fatigabilidade, decorrentes principalmente da redução da transmissão neuromuscular mediada por anticorpos contra proteínas da membrana pós-sináptica. Embora seja frequentemente associada à população adulta, a doença também pode se manifestar durante a infância e a adolescência, constituindo a chamada Miastenia Gravis Juvenil (MGJ).

A MGJ apresenta particularidades importantes em relação à forma do adulto. A apresentação clínica pode ser predominantemente ocular, a frequência dos diferentes subtipos de anticorpos varia de acordo com a idade e a população estudada, e aspectos relacionados ao crescimento, desenvolvimento puberal, escolaridade e impacto psicossocial devem ser considerados na avaliação e no tratamento. Além disso, o diagnóstico diferencial com síndromes miastênicas congênitas e outras doenças neuromusculares é especialmente relevante nas crianças.

Apesar dessas particularidades, o reconhecimento da doença segue princípios semelhantes aos utilizados em adultos. O diagnóstico baseia-se na combinação entre quadro clínico compatível e evidências de comprometimento da transmissão neuromuscular, complementadas pela investigação de autoanticorpos e, quando necessário, por estudos eletrofisiológicos.

Aspectos clínicos

A manifestação característica da MG é a fraqueza muscular flutuante, geralmente com piora após esforço e melhora após repouso. Na MGJ, os músculos oculares são frequentemente envolvidos, podendo ocorrer ptose palpebral e diplopia. Em alguns pacientes, principalmente nos mais jovens, a doença pode permanecer restrita à musculatura ocular por períodos prolongados.

A presença de ptose palpebral variável, especialmente quando associada a diplopia que se modifica ao longo do dia, deve levantar a suspeita de MG. A ausência de alterações pupilares e a preservação da sensibilidade são características úteis na diferenciação de outras causas de oftalmoparesia.

A doença também pode comprometer a musculatura bulbar e facial, levando a dificuldade para mastigar, disfagia, disartria e redução da expressão facial. Em crianças e adolescentes, manifestações como fadiga durante as refeições, dificuldade para mastigar alimentos mais consistentes ou alteração progressiva da voz podem ser inicialmente interpretadas como problemas comportamentais, escolares ou otorrinolaringológicos.

O acometimento de membros costuma apresentar distribuição predominantemente proximal, com dificuldade para elevar os braços, pentear os cabelos, subir escadas ou levantar-se de uma cadeira. A fraqueza pode ser bastante variável, inclusive durante o mesmo exame neurológico.

O envolvimento respiratório caracteriza as formas mais graves da doença e pode resultar em crise miastênica, situação potencialmente fatal que exige reconhecimento e tratamento imediatos. É importante lembrar que a gravidade da doença não deve ser estimada apenas pela força dos membros. Pacientes com comprometimento bulbar ou respiratório podem apresentar risco significativo mesmo quando a fraqueza apendicular é relativamente discreta.

Uma proporção significativa das crianças com MGJ apresenta inicialmente sintomas exclusivamente oculares. A evolução para doença generalizada ocorre em parte desses pacientes, principalmente nos primeiros anos após o diagnóstico. A distinção entre MG ocular e generalizada tem importância prognóstica e terapêutica. Ptose e diplopia isoladas podem ser manejadas inicialmente de maneira relativamente conservadora em determinados pacientes, enquanto a presença de fraqueza bulbar, axial, de membros ou respiratória geralmente indica necessidade de tratamento sistêmico. Na prática, entretanto, a classificação não deve ser vista como “absolutamente estática”. Um paciente inicialmente com MG forma ocular pode desenvolver posteriormente manifestações generalizadas, motivo pelo qual o acompanhamento clínico longitudinal é fundamental.

Diagnóstico

O diagnóstico da MGJ deve se iniciar pela identificação de um padrão clínico compatível. A demonstração de fatigabilidade pode ser útil no exame neurológico, por meio de manobras simples, como sustentação do olhar na posição vertical para cima, elevação prolongada dos membros ou movimentos repetitivos, podendo ser empregadas escalas clínicas de avaliação específica como a clássica escala QMG. Na presença de ptose palpebral, por exemplo, a piora após olhar sustentado para cima pode ser observada durante o exame. O fenômeno de melhora após repouso também é característico. Testes farmacológicos têm hoje papel muito mais limitado, principalmente devido à disponibilidade de métodos sorológicos e eletrofisiológicos mais seguros.

Autoanticorpos, eletroneuromiografia com estimulação repetitiva e imagem torácica

A investigação de autoanticorpos é um dos pilares do diagnóstico. Os anticorpos contra o receptor de acetilcolina (AChR) são os mais conhecidos e estão presentes em grande parte dos pacientes com MG generalizada, embora sua frequência seja menor nas formas exclusivamente oculares. Os anticorpos contra MuSK (muscle-specific kinase) representam outro grupo importante. Embora menos frequentes na população pediátrica como um todo, sua identificação é clinicamente relevante porque determinados pacientes apresentam fenótipo predominantemente bulbar e facial, além de particularidades na resposta terapêutica. Em pacientes soronegativos para AChR e MuSK, outros marcadores podem ser considerados, dependendo da disponibilidade do método e do contexto clínico. Não é totalmente estabelecido o potencial de associação nos casos juvenis com anticorpos anti-LRP4 (low density lipoprotein receptor-related protein 4). É importante, entretanto, não excluir MG apenas diante de sorologia negativa, particularmente nos pacientes com forma ocular pura ou eventualmente com formas de menor gravidade clínica.

A eletroneuromiografia convencional pode ser normal, especialmente em pacientes com doença predominantemente ocular. Nesses casos, estudos de estimulação nervosa repetitiva podem demonstrar decremento da resposta muscular após estimulação repetitiva a baixa frequência. A eletromiografia de fibra única, quando disponível e se necessária, apresenta elevada sensibilidade para alterações da transmissão neuromuscular e pode ser especialmente útil nos casos em que persiste dúvida diagnóstica, após a rota de avaliação laboratorial inicial. Entretanto, alterações na transmissão neuromuscular devem sempre ser interpretadas em conjunto com a apresentação clínica, pois a sensibilidade elevada não substitui o raciocínio clínico e não permite isoladamente a caracterização de uma doença primária da junção neuromuscular.

O timo tem papel importante na fisiopatologia da MG autoimune, principalmente nas formas associadas a anticorpos contra AChR. Alterações tímicas podem estar presentes também em pacientes jovens. A investigação do mediastino, geralmente por tomografia computadorizada ou ressonância magnética, é indicada de acordo com o contexto clínico e a estratégia diagnóstica adotada. A presença de timoma em crianças é muito rara, mas a identificação de uma massa tímica muda completamente a abordagem do tratamento da criança.

Tratamento da MGJ

O tratamento da MGJ tem como objetivos controlar os sintomas, prevenir exacerbações e crises, minimizar os efeitos (ou eventos) adversos das terapias medicamentosas e permitir que a criança ou o adolescente alcance estabilidade clínica para manter boas condições de seu crescimento, seu desenvolvimento, sua escolarização e sua qualidade de vida adequadadamente. A piridostigmina costuma ser a primeira opção terapêutica sintomática utilizada, especialmente em pacientes com doença leve ou em fenótipos predominantemente oculares (classe I MGFA), promovendo a inibição da acetilcolinesterase na junção neuromuscular, perpetuando, assim, maior disponibilidade de acetilcolina na região da junção. A resposta clínica sintomática em geral é favorável, mas variável, e potenciais eventos adversos colinérgicos, como cólicas abdominais, diarreia, náuseas e aumento de secreções (sialorreia, broncorreia), podem limitar as doses sintomáticas utilizadas.

Quando os sintomas não conseguem ser adequadamente controlados isoladamente com tratamento sintomático ou quando já existem características indicativas de forma de doença generalizada, os corticosteroides (como prednisona, prednisolona, deflazacort) constituem uma das principais opções de terapias medicamentosas iniciais de primeira linha. A utilização na faixa etária pediátrica exige naturalmente atenção especial, diante do potencial perfil de eventos adversos podem interferir diretamente no crescimento, metabolismo ósseo, ganho de peso, desenvolvimento puberal e saúde mental. Por esta razão, deve-se buscar a menor dose eficaz e, quando possível, utilizar diferentes estratégias possíveis poupadoras de corticosteroides. A introdução da corticoterapia deve ser realizada de forma cautelosa e geralmente gradativa, diante da ocorrência potencial de piora paradoxal da fadiga e da fraqueza muscular dos pacientes diante da introdução de doses mais elevadas da corticoterapia, sendo particularmente preocupante em indivíduos com síndrome bulbar (disfagia e disfonia) ou envolvimento ventilatório mais significativo.

Em pacientes que necessitem de tratamento medicamentoso prolongado com a corticoterapia ou que apresentem indícios iniciais de doença manifesta com perfil clínico mais grave, frente aos efeitos adversos relevantes da corticoterapia ou de resposta clínica insatisfatória, drogas imunossupressoras imunoduladoras podem ser utilizadas, como azatioprina, ciclosporina e micofenolato mofetil, dependendo a escolha com fatores como idade, perfil clínico e laboratorial e a própria experiência de cada profissional ou centro de referência. É importante destacar que não há estudos clínicos significativos com maior nível de evidência científica relacionados ao uso destas drogas imunossupressoras imunomoduladoras na faixa etária pediátrica, sendo a recomendação fundamentalmente relacionada a contexto “off-label”.

Nas exacerbações graves ou nas crises miastênicas com comprometimento bulbar ou respiratório marcados, imunoglobulina intravenosa (IVIg) e plasmaférese são importantes ferramentas terapêuticas na MGJ, de forma semelhante à MG no adulto. A escolha entre essas estratégias depende da gravidade clínica, da disponibilidade, experiência do especialista e do centro de referência e das condições clínicas do paciente.

Crise miastênica

A crise miastênica representa uma emergência neurológica/neuromuscular caracterizada por piora muito importante da fraqueza muscular ocasionando comprometimento da musculatura respiratória (ventilatória) e/ou bulbar suficiente para colocar em risco a ventilação ou a proteção das vias aéreas, trazendo a necessidade de suporte ventilatório ao paciente. Na MGJ, é particularmente importante reconhecer sinais de alerta como disfagia progressiva, dificuldade para manejar secreções, voz anasalada ou hipofônica, tosse ineficaz, ortopneia e redução progressiva da capacidade ventilatória, como fatores potenciais precedendo a progressão para uma crise miastênica.

Estudos em andamento e novas abordagens terapêuticas

Encontram-se em estudos na atualidade abordagens terapêuticas avaliando o potencial de eficácia e o perfil de segurança no uso de terapias anti-complemento anti-C5 em pacientes com MGJ. Encontra-se em andamento o estudo de Fase 3 ALXN1720, avaliando o medicamento Gefurulimabe, incluindo a realização do estudo no cenário pediátrico no Brasil. Importante destacar que, previamente, já ocorreu o estudo MG303 de Fase 3 com uso do Eculizumabe em pacientes pediátricos entre 12 e 17 anos de idade com MGJ generalizada refratária com perfil anticorpo anti-receptor de acetilcolina positiva, tendo sido observados resultados evidenciando perfil de eficácia favorável (redução da pontuação dos escores das escalas de QMG e de MG-ADL após 26 semanas do tratamento) e bom perfil de segurança. A classe dos inibidores anti-FcRn ainda não foram individualmente avaliados em estudos clínicos específicos na faixa etária pediátrica, existindo dados isolados de experiência em crianças e em adolescentes.

Medicamentos e fatores desencadeantes

Pacientes com MGJ devem ser orientados sobre medicamentos que podem interferir na transmissão neuromuscular. Entre os grupos tradicionalmente associados à piora estão alguns antibióticos, como aminoglicosídeos e fluoroquinolonas, além de determinadas drogas cardiovasculares e outros agentes. É fundamentalmente que toda conduta médica prescritiva seja antecedida pela checagem de rotina do perfil de segurança apresentado pela droga em questão em pacientes com MG. Isso não significa que todo medicamento potencialmente associado à piora seja absolutamente contraindicado, mas que toda opção e decisão médica deve considerar aspectos de risco-benefício e a disponibilidade ou não de alternativas terapêuticas. Infecções sistêmicas (como infecção do trato urinário, broncopneumonia e infecções cutâneas) são desencadeantes particularmente importantes e podem causar deterioração clínica significativa. Comorbidades clínicas descompensadas (incluindo doenças autoimune sobrepostas) e o uso irregular das drogas sintomáticas e modificadoras de doença também possuem potencial de exacerbação clínica ou de origem de crises miastênicas.

Particularidades da abordagem na infância e adolescência

O tratamento da MGJ não deve ser considerado apenas como uma “versão pediátrica” do tratamento da MG do adulto. Há inúmeros fatores que devem ser cuidadosamente avaliados dentro do processo diagnóstico e na escolha das proposições terapêuticas medicamentosas, bem como nos cuidados de fatores desencadeantes para crises miastênicas. Trata-se de um período da vida relacionado a intenso desenvolvimento físico, psíquico e de criação e estruturação de redes de conexões sociais nas interações da criança, podendo os clássicos sintomas da MGJ, como fadiga muscular, ptose palpebral, diplopia, disfonia e disfagia, interferirem e impactarem de forma marcante a vida da criança e do adolescente. Da mesma forma, aspectos clínicos ligados aos potenciais eventos adversos das diferentes terapêuticas medicamentosas podem marcar acentuadamente o cotidiano dos pacientes e a qualidade de vida dos mesmos. Trata-se, portanto, de abordagem terapêutica integrada de pacientes, equipe médica, equipe multiprofissional, professores, e educadores físicos. Também é marcante neste período a necessidade imperativa de se programar cuidadosa a transição do período pediátrico para a idade adulta.

Diagnósticos diferenciais

Os principais diagnósticos diferenciais neuromusculares pertinentes a serem considerados em relação à MG juvenil incluem as Síndromes Miastênicas Congênitas (SMC) ou Miastenias Congênitas, as Oftalmoparesias Externas Crônicas Progressivas (PEO) relacionadas às miopatias mitocondriais, as miopatias congênitas (mais comumente miopatias centronuclear e nemalínica), a Miopatia congênita tipo MYPOP (Proximal Myopathy and Ophthalmoplegia; CMYO6) relacionada ao gene MYH2, a miastenia neonatal transitória, o botulismo e eventualmente outras miopatias metabólicas (raramente nas glicogenoses musculares e nas lipidoses musculares). Muito mais raramente no contexto pediátrico, pode ser considerada a apresentação da síndrome miastênica de Lambert-Eaton (LEMS). Esses diagnósticos diferenciais são bastante significativos no contexto de pacientes com perfil soronegativo, devendo também ser considerados em pacientes sem resposta clínica favorável às terapêuticas convencionais ou com padrão de refratariedade clínica.

Outros diagnósticos diferenciais incluem oftalmoplegias mitocondriais, distrofias musculares, miopatias inflamatórias, doenças do tronco encefálico e neuropatias cranianas. Em adolescentes, especialmente quando há sintomas flutuantes e fatigabilidade, transtornos funcionais também podem entrar no diagnóstico diferencial, mas devem ser considerados somente após avaliação neurológica adequada.

Prognóstico

De maneira geral, o prognóstico da MGJ é favorável quando o diagnóstico é realizado precocemente e o tratamento é adequadamente individualizado. Muitos pacientes alcançam bom controle clínico e conseguem manter atividades escolares, sociais e profissionais mais próximas possíveis da normalidade. A evolução, entretanto, é heterogênea, incluindo pacientes com formas clínicas leves (atenuadas) e eventuais apresentações generalizadas graves, incluindo crises miastênicas e refratariedade clínica. Alguns pacientes permanecem com doença predominantemente ocular, enquanto outros desenvolvem doença generalizada e necessitam de imunoterapia prolongada. A identificação do perfil de anticorpos (anti-receptor de acetilcolina, anti-MuSK, soronegativa), a idade de início, a extensão da doença e a resposta ao tratamento medicamentoso são importante elementos na caracterização da questão prognóstica. Não se deve, contudo, determinar a questão da progressão e do curso clínico isoladamente com base nestes marcadores, sendo o seguimento clínico próximo e a tendência à resposta clínica com terapêutica otimizada os principais parâmetros para caracterização do elemento prognóstico.

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